Nas duas últimas semanas, a itinerância do atelier A Maior Flor do Mundo levou-nos de Norte a Sul, com paragens em Palmela, Tondela e Santiago do Cacém.
Deste trabalho resultou o contacto com mais cerca de duzentas crianças de distintas regiões do país. Mas, todas elas, com a mesma vontade e disponibilidade para as actividades propostas. Em Palmela visitámos o Centro de Recursos Educativos da EB 2,3 Hermenegildo Capelo onde recebemos a visita de seis turmas do segundo ciclo. Em Tondela, a visita do atelier inseriu-se na Festa do Livro e da Leitura que durante uma semana levou a esta cidade do interior autores, peças de teatro e uma feira do livro. Aqui, o trabalho foi desenvolvido com turmas do primeiro ciclo do ensino básico de aldeias próximas. Ontem foi a vez da visita a Santiago do Cacém onde, na Biblioteca Manuel da Fonseca, espaço que recebeu durante o mês de Abril a exposição José Saramago. Levantado do Chão, realizámos o atelier para três turmas do primeiro ciclo.
A todos os alunos o nosso obrigado e esperamos pelos vossos trabalhos.
Na próxima semana, o atelier viajará até Torres Novas.
Enquanto o atelier A Maior Flor do Mundo continua a sua viagem por Bibliotecas e Escolas de todo o país, que o levou na semana passada à Biblioteca Municipal de Elvas e que passará na próxima semana por Torres Vedras, um e-mail de hoje trouxe-nos o registo em imagem de um conjunto de trabalhos em cerâmica em resultado do atelier que realizámos na EBI/JI do Alto dos Moinhos.
Aqui deixamos esse registo com um agradecimento aos seus autores e aos professores que os orientaram:
Dali para diante, para o nosso menino será só uma pergunta sem literatura: «Vou ou não vou?» E foi.
Mas a flor aprumada já dava cheiro no ar, e como se fosse um carvalho deitava sombra no chão.
Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...
As três últimas itinerâncias do atelier A Maior Flor do Mundo levaram-nos à Ericeira, a Penafiel e à Moita.
Três locais diferentes, três realidades distintas.
Ericeira
Na Ericeira, os ateliers tiveram lugar na EB 2,3 da Ericeira, no espaço da Biblioteca Escolar, para alunos do 5.º e 6.º ano. E permitiram comprovar alguns sinais que mostram as dificuldades que hoje se vivem em algumas escolas, com alunos que não respeitam o professor e o seu papel de educador. Uma situação que, neste caso concreto, entronca no papel que muitos pais assumem, de defesa incondicional dos seus descendentes quando não se verificam razões para tal. No meio de algumas situações mais complicadas, as sessões decorreram com a normalidade possível.
Em Penafiel, as sessões decorreram a bom ritmo com turmas de duas escolas. Uma da sede de Concelho e a outra com duas turmas de uma freguesia rural, Milhundos. E também neste caso foi possível retirar algumas conclusões, no que respeita ao interesse e envolvimento dos alunos. Se no primeiro caso, os alunos demonstraram atenção e interesse no trabalho realizado, no segundo atelier as expectativas foram superadas. Da experiência acumulada até aqui, percebe-se que os alunos de zonas mais afastadas dos centros urbanos apresentam uma vontade e uma disponibilidade maior, facto que resulta, provavelmente, de existir uma menor oferta cultural nos locais onde habitam, confirmando as distintas realidades do país.
Moita - Vale da Amoreira
Por fim, no Concelho da Moita, os ateliers realizaram-se no Vale da Amoreira e em Alhos Vedros. As duas primeiras sessões receberam os alunos do 1.º Ciclo da Escola do Vale da Amoreira, zona conotada com alguns problemas sociais, entretanto esbatidos pelo trabalho realizado entre a comunidade e os serviços públicos que ali funcionam. Os dois ateliers que ali tiveram lugar confirmaram isso mesmo, perante os cerca de 100 alunos que se empenharam e participaram activamente no trabalho que lhes foi proposto. No caso de Alhos Vedros, o atelier recebeu alunos de uma turma do 2.º ciclo e acrescentou alguns indícios a uma tendência já referida num texto anterior, de que os jovens a partir da adolescência apresentam uma maior propensão para o afastamento em relação aos livros e à leitura. Uma tendência a confirmar em ateliers futuros.
Em resposta ao desafio deixado no atelier A Maior Flor do Mundo, recebemos três trabalhos de alunos que estão no Centro de Reabilitação do Alcoitão. Trata-se de um texto e de dois desenhos que reinterpretam o texto de José Saramago e o filme concebido a partir do livro.
Aqui ficam:
A história segundo o Kiko
Sou o escaravelho Kiko e estava em cima de uma flor, quando fui apanhado pelo Zezinho que me meteu numa caixa com buracos.
- Eu sou igual a todas as pessoas. Podes tirar-me daqui? Quero ir fazer a minha vida! – pedi-lhe.
Mas o Zezinho não me deu ouvidos até que tropeçou numa pedra, a caixa abriu-se e eu fugi a voar para a floresta.
O Zezinho bem que correu atrás de mim: atravessou o rio, passou por campos de campainhas coloridas, árvores e árvores sem fim, só que não conseguiu apanhar-me.
Andava eu a trabalhar, a fazer a minha casa, a suar em bica e quem vejo? O Zezinho a correr esbaforido com água nas mãos feitas concha.
- Onde é que este malandro vai que nem me viu?
Fiquei curioso e segui-o. Será que ele apanhou algum dos meus amigos?
Voei, voei e o Zezinho continuava a passar por mim para lá e para cá com água nas mãos.
Quando cheguei ao sopé da colina vi a maior flor do mundo e o Zezinho adormecido na sombra da flor e uma pétala como se fosse um cobertor.
Voei até ao Zezinho e soprei devagarinho ao seu ouvido:
- És um herói!
O Zezinho acordou, agradeceu-me as palavras e abraçou-me. Ficámos amigos para sempre. A flor passou a ser a minha casa, porque foi lá que encontrei a Nini, a minha namorada.
Daqui, da minha casa, avisto a aldeia e a casa do Zezinho. Todas as noites, ele faz-me sinais de luzes com uma lanterna a dizer-me:
- Tenham uma noite feliz!
Agora já tenho uma história para contar aos meus filhos.
Ana Patrícia, Dulciney Pontes, Lassana Indjai, Malam Sané, Nikita, Ruben Brito, Sónia Coelho, Tiago Baptista
Continuando o programa de ateliers da Fundação José Saramago, A Maior Flor do Mundo visitou ontem o Centro Hospitalar de Alcoitão e a EB 2, 3 de Alcabideche.
No primeiro atelier estiveram presentes 7 crianças que estão neste momento em reabilitação naquele centro hospitalar. O trabalho que ali se desenvolve visa, e com sucesso, levar um outro tipo de bem-estar a quem é, ainda que temporariamente, alvo de cuidados médicos. À chegada, um grupo de palhaços percorria os corredores, enchendo de sons espaços que são, normalmente, habitados pelo silêncio. A sessão teve lugar na sala de aula da Escola que ali funciona e encontrou nos alunos, conhecedores da vida e da obra de José Saramago, em resultado do trabalho dos professores, um grupo atento, interessado e pronto a entrar nas páginas, nos sons e nas imagens de A Maior Flor do Mundo. À saída, ficou a garantia de que, nos próximos dias, receberemos alguns trabalhos escritos ou desenhados, de sua autoria. Ficamos ansiosamente à espera.
A segunda sessão decorreu na EB 2,3 de Alcabideche. Na sessão, que teve lugar na Biblioteca Escolar, estiveram presentes duas turmas do 2.º ciclo, num total de cerca de 35 alunos. Também aqui o trabalho deu frutos apesar de alguma relutância demonstrada no início da sessão. Alguns dos alunos que compõem a população escolar da EB 2,3 de Alcabideche apresentam alguns sinais de distanciamento em relação ao trabalho na sala de aula e à própria dinâmica escolar. Por esta razão, a realização de acções que os levem a aproximar-se do universo lectivo, de uma forma lúdica e afastada dos princípios que devem reger o trabalho na sala de aula, reveste-se de uma ainda maior importância. Foi dado mais um passo nesse sentido. Fica a expectativa de que este trabalho frutifique.
Depois do Centro e do Sul do país, ontem foi a vez de a Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos de Lijó, freguesia rural do Concelho de Barcelos, receber a visita da Fundação José Saramago e do atelier A Maior Flor do Mundo.
Realizaram-se duas sessões com seis turmas do 5º e 6º ano, contabilizando um total de 140 alunos, que, à semelhança do que tem acontecido nos anteriores ateliers, se deixaram levar por palavras e sons, por imagens, descobertas e desafios.
Diversos estudos sobre a temática da promoção da leitura permitem perceber que os adolescentes têm uma maior propensão para se afastar do universo dos livros, ao contrário do que acontece numa fase inicial da aquisição das competências de leitura e de escrita. Os mesmos estudos afirmam que se formarmos leitores nessa fase inicial, por muito que o afastamento se verifique numa etapa intermédia, existem maiores probabilidades de mais tarde voltarem a sentir o mesmo apelo e o mesmo fascínio pelos livros, retomando e consolidando hábitos de leitura adquiridos na infância.
Quer isto dizer que a Promoção da Leitura de deve centrar na infância? Não, este trabalho deve acompanhar as diversas fases de crescimento das crianças e dos jovens, permitindo-lhes um contacto próximo com os livros. No caso de A Maior Flor do Mundo, verifica-se que o texto pode funcionar com os alunos do 1.º e do 2.º Ciclo. Porque, se por um lado se observa que a narrativa contém elementos que a aproxima de um universo mais infantil, por outro lado a escrita de José Saramago, pelas suas características, pela não cedência ao facilitismo que muitas vezes se verifica nas páginas de livros infantis, desafia quem o lê, motivando-os para a história.
Uma conclusão que reforça o empenho da Fundação José Saramago neste trabalho que, passo a passo, pensamos poder ser mais um contributo para formar leitores e para os aproximar dos livros e da leitura.
A curta-metragem de animação adaptada do livro de José Saramago, A Maior Flor do Mundo, realizada por Juan Pablo Etcheverry e com música de Emilio Aragón, acaba de receber o Prémio de Melhor Curta de Animação no 1.º Festival de Madama, realizado na localidade de Sanxenxo. Este prémio assinala mais um marco na carreira deste trabalho que já esteve presente em mais de trinta certames e festivais tanto nacionais como internacionais, entre os quais se destacam o Animadrid, Animabasauri, Animacor, Festival de Clermont-Ferrand, Los Angeles Latino Film Festival ou o Chicago Short Film Festival; para além de ter obtido numerosos prémios, dos quais se destaca o Prémio Mestre Mateo 2008 para melhor curta de animação, e a nomeação na mesma categoria ao Goya 2007.
Já no próximo mês de Abril, A Maior Flor do Mundo poderá ser vista na 2.ª edição do Gulf Film Festival, a ter lugar no Dubai.
Recebemos já um primeiro texto de uma aluna que participou no atelier A Maior Flor do Mundo na Escola EB 2, 3 Inês de castro de São Martinho do Bispo. Trata-se da Ana Rita, aluna da turma 5.º A que nos enviou o texto que a seguir reproduzimos, com um agradecimento:
O Herói da Flor
Era uma vez um rapazinho que não sabia ler nem escrever… Vivia numa ilha encantada, tinha alegria e casas por todo o lado! Mas não havia escola, por isso tinha de arranjar alguma coisa que gostasse de fazer.
Este menino chamava-se José Saramago. De facto, era conhecido como o “Letras”, pois naquela ilha era o único com imaginação para quase tudo!
Uma vez, preocupado por não ter imaginação, foi até aos confins da ilha sem se preocupar com mais nada… Foi tão longe que, quando se lembrou de que estava sozinho, seguiu para onde o destino o levasse… Se já ninguém sabia dele, podia continuar a sua viagem perdida! Pelo caminho, encontrou uma flor. Era estranha, mas o mais engraçado é que chamava muito a sua atenção. Ficou um longo tempo a olhar para a pequena flor murcha e, logo depois, lembrou-se de ir buscar água ao rio. Foi um longo caminho, mas voltou para ao pé da flor num instante! Sem imaginar que poderia acontecer uma coisa tão fascinante, a flor subiu, subiu e subiu cada vez mais…
A flor, naquele estado, parecia do tamanho do mundo!
O sono, de repente, chegou aos olhos do pequeno rapaz, o “Letras”. A flor, para lhe agradecer, decidiu dar uma das suas pétalas para servir de cobertor durante algum tempo…
Entretanto, os pais do rapaz já estavam preocupados. Deram a volta à ilha encantada, mas nada…
De repente, uma porta, vinda do nada, abriu-se… Os pais, com algumas esperanças, atravessaram a porta e um pouco mais à frente encontraram o José…
Finalmente em casa, José Saramago foi até ao centro da ilha ver a grande flor.
Com um sorriso na cara, as pessoas que lá viviam deram um abraço ao “Letras” e todas juntas disseram:
- Este é o nosso herói!
Tentei cumprir a promessa de escrever esta história com outras palavras. Espero que esteja bem contada, para mais tarde escrever as minhas próprias histórias!
«A Maior Flor do Mundo» rumou ontem ao Sul, mais concretamente à Escola Básica Integrada de Boliqueime (Biblioteca Escolar Lídia Jorge), onde se realizaram mais duas sessões do atelier itinerante que a Fundação José Saramago está a levar a escolas e bibliotecas de todo o país.
Corresponderam ao nosso desafio duas turmas (uma do 2.º Ciclo e uma do 1.º ciclo) que, tal como já tinha acontecido em Corroios e Coimbra, ouviram atentamente o conto e sugeriram títulos que nasceram da sua visão da história, confirmando a multiplicidade de sentidos que o texto de José Saramago permite. Seguiu-se a projecção do filme e a confirmação do fascínio que as imagens e os sons exercem sobre quem a ele assiste, miúdos e graúdos, alertados pelas interrogações que encerram o livro: «E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?»
No final, os alunos responderam afirmativamente ao desafio que o autor lança no texto, estando já prevista uma exposição dos trabalhos na escola durante a Semana da Leitura, de que aqui daremos conta nos próximos dias.
Depois de Corroios, o atelier A Maior Flor do Mundo, da Fundação José Saramago, esteve ontem em São Martinho do Bispo, Coimbra.
Foi no espaço da Biblioteca da Escola Básica do 2.º e 3.º Ciclo Inês de Castro, sede do agrupamento com o mesmo nome, que cerca de cento e vinte alunos deram asas à imaginação e ouviram a história depois de terem jogado com palavras retiradas do texto. Uma das confirmações que surge do trabalho que está a ser realizado é a de que a história contém elementos que permitem que os alunos sejam confrontados com as suas próprias realidades e com as suas visões do mundo. Após a leitura da história, sem que sejam mostradas as belas ilustrações de João Caetano, pergunta-se aos alunos se concordam ou não com o título e se conseguem imaginar como será o “menino herói” da história. A confirmação surge depois quando se projecta o filme de animação de Juan Pablo Etcheverry. E o silêncio que percorre a sala, ouvindo-se apenas a brilhante banda sonora, e a expressividade na face de cada aluno comprovam o ambiente de partilha que se pode criar em torno de um livro ou, neste caso, em torno de um livro e de uma adaptação animada do mesmo.
Um outro aspecto curioso que ressalta deste trabalho é o de que uma parte significativa dos alunos, embora fascinados pela imagem e pelo som, prefere a leitura da história. Porque a leitura propicia a imaginação, porque na história o menino pode ser gordo ou magro, alto ou baixo, estar vestido com umas calças ou de calções, a flor pode ser vermelha, amarela ou branca. E é por isto que a leitura de uma história, o contacto com mundos alternativos, se reveste de extraordinária importância na promoção da leitura.
A terminar, confrontados com o repto lançado por José Saramago, “quem sabe se um dia não lerei outra vez este história, escrita por ti que me lês mas muito mais bonita”, os alunos deixaram a biblioteca com o reencontro marcado para o dia em que nos enviarem os trabalhos que irão realizar.
Por fim, uma palavra de agradecimento a toda a equipa da Biblioteca Escolar pela recepção e aos alunos pela vivacidade e disponibilidade.
E para a semana A Maior Flor do Mundo rumará a Sul…